O Instituto Butantan já começou a fabricar sua vacina contra a dengue, a Butantan-DV, que tem 74,6% de eficácia (em quem já teve dengue, 89,2%). Um novo estudo revela que ela também reduz drasticamente a replicação do vírus da dengue no organismo, o que pode ajudar a frear a propagação da doença no Brasil.
Entrevistamos Maurício Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) e um dos autores do trabalho, para entender.
O estudo mostrou que a Butantan-DV consegue frear a replicação do vírus, caso a pessoa vacinada venha a ter dengue. Por que isso é importante
Nenhuma vacina tem 100% de eficácia. Existem pessoas que, apesar de vacinadas, têm as chamadas breakthrough infections, o escape vacinal. O que a gente percebeu é que, nessas pessoas, a carga viral era menor do que entre não vacinados.
Isso tem alguns aspectos importantes. O primeiro é que a quantidade de vírus é proporcional à gravidade da doença. Então, mesmo se houver escape, ele é reduzido.
Existe outra questão. Um dos problemas que a Dengvaxia tinha – essa vacina, do laboratório Sanofi, foi retirada do mercado brasileiro pelo fabricante em 2025 – era a possibilidade de um fenômeno chamado ADE (potencialização dependente de anticorpos).
A vacina acabava funcionando como uma primeira infecção, e os anticorpos, em vez de proteger, facilitavam a multiplicação viral. Se isso estivesse ocorrendo na vacina do Butantan, a carga viral de quem tomou a vacina seria maior do que a carga viral de quem não tomou. E não é o que acontece. Então, esse é um dado de segurança também.
E o terceiro ponto envolve o ciclo da dengue. O mosquito pica uma pessoa, que desenvolve viremia (multiplicação do vírus no sangue), depois outro mosquito pica essa mesma pessoa. A quantidade de vírus que a pessoa tem no sangue é diretamente proporcional à capacidade de esse mosquito se infectar e infectar outra pessoa.
Quando a gente olha a carga viral das pessoas com dengue, a dos vacinados com a Butantan-DV foi 16 vezes menor. Então, existe a diminuição da transmissão.
Essa menor carga viral proporcionada pela Butantan-DV pode reduzir a circulação da dengue na sociedade?
A princípio, sim. Agora, quantas pessoas nós precisaremos vacinar para ter esse efeito é o que estamos estudando no momento.
E, além das vacinas, é necessário ter uma segunda camada de combate à doença, incluindo medicamentos e o controle do mosquito.
Fonte do estudo científico citada na matéria:
“Dengue virus genetic diversity in unvaccinated and vaccinated dengue-infected individuals: an observational analysis of the Butantan-DV phase 3 trial in Brazil”
Nova Butantan-DV dificulta a transmissão do vírus, mostra estudo.
Por Bruno Garattoni – Superinteressante
Publicado em 30 mar 2026, 12h00